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29 de abril de 2026
Programa 116 K'arranca às Quartas
porque olho
28 de abril de 2026
fui à praia
27 de abril de 2026
uma festa de anos que fui
Ah, os anos 60! Se hoje o drama é a senha do Wi-Fi, em 1968 o drama era o volume do gira-discos e a quantidade de laca ou brilhantina necessária para manter um penteado intacto diante de uma ventoínha,
Aqui vou contar uma versão de uma estória quase verdadeira, com mini-hondas, brilhantina e o terror de todos os pais daquela época: o conjunto rock que abrilhantavam os bailes e festas de garagem.
Tudo começou quando o Álvaro, que acabava de completar 16 anos e achava que era a reencarnação do James Dean ou, na pior da hipóteses, o Alan Delon, já para não falar do Morandi ou no Holliday. Ele resolveu que a festa iria ser na Discoteca e que ia ser um estouro.
A senhora sua mãe deve ter passado os três dias anteriores a fazer croquetes, rissóis, panados e um tal de ponche de frutas que agora baptizaram de sangria.
O pai, estava na sala a testar o gira-discos e os muitos vinis afim de colmatar qualquer falha da banda convidada. Ele tinha uma regra clara:
- Se eu ouvir esse tal de Roberto Carlos gritar que 'está proibido fumar', eu desligo a luz e acaba-se a festa. É que ele não respirava, fumava.
Os convidados foram chegando, uns nas sua mini-hondas, outros na Mini Suzuki, outros a pé e poucos à boleia do carro dos pais. As meninas tentavam desesperadamente manter as saias rodadas, curtas e sem vincos. Não era moda a saia plissada e os pais não deixavam as saias se encurtarem mais.
Entrar na festa exigia um protocolo: os rapazes entravam com o pente de bolso na mão, dando aquele retoque final na franja e as moças chegavam com uma invisível névoa de perfume e um palmo dos joelhos à mostra.
Quando o conjunto rock começou a tocar Twist and Shout dos Beatles, a sala parecia tinha virado um campo de batalha. O objetivo era mexer os joelhos o mais rápido possível sem derrubar nada.
O ápice foi o lent". Quando a música diminuiu o ritmo, o pai do Álvaro levantou-se do sofá como se tivesse ouvido um alarme de incêndio. Ele circulava pelo salão com uma lanterna, sim, uma lanterna, garantindo que houvesse, no mínimo, o espaço de uma Bíblia Sagrada entre cada par que dançava.
No meio da festa, o conjunto tentou tocar os Rolling Stones. A senhora mãe dele logo apareceu ali a gritar que aquilo é música de quem não toma banho nem se penteia. A banda parou, amuou e abalou. Não era refrão, foi mesmo decisão. Aí estava o prevenido pai com os seus vinís e todos dançaram um banho de lua ao som do gira-discos. Tinha acabado de anoitecer, porque depois das nove é coisa só de cinema americano, a festa terminou.
Depois de quase todos terem saído, contrariados, uns de mão dada outros apenasmente a ter visão dupla por causa da tal ponche bebida em exagero.
Eu era quase da casa, assim com mais uns dois ou três ficámos para a limpeza combinada.
O cenário era de dar dó:
O chão estava tão grudento de ponche derramado que os sapatos faziam ploc a cada passo. Havia marcas de brilhantina em todas as almofadas de cetim. o Álvaro estava no canto, a tentar convencer futura namorada de que ele ia ganhar um Simca Chambord de presente, mentira deslavada.
O pai, soprando uma baforada afirmou:
- Para Ano que vem, vais comemorar na igreja, que é mais seguro.
26 de abril de 2026
sem palavras
Pertinências 7 - Equipes de Rua - III Colóquio do Grato
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir.
Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
O Padre Rui Fernandes moderou o painel intitulado os
desafios das equipes de rua no âmbito das adições e saúde mental
Falarão Ricardo Rodrigues, Ana Margarida Teixeira, Fábio
Simão e Luís Norte
Imperdícel
25 de abril de 2026
Ser livre
Com o sol em Abril chega sempre a vontade de arejar a casa, abrir as janelas, sacodir os tapetes e deixar entrar luz sem ter de pedir licença.
Num outro Abril a Revolução dos Cravos, fez isso mesmo, mas em versão nacional: abriu as janelas de Portugal e disse agora respira.
O problema. deliciosamente, é que a liberdade vem sem manual de instruções. Não traz um folheto do a explicar e não diz: Parabéns, adquiriste a tua liberdade. Monta com cuidado e usa com responsabilidade. Nada disso. A liberdade chega como a primavera: bonita, espalhafatosa e um bocadinho desorganizada.
Há quem, perante tanta liberdade, se comporte como criança em loja brinquedos: quer tudo ao mesmo tempo. Fala mais alto, opina sobre tudo, partilha até o que não sabe. E está tudo certo, é o entusiasmo de querer usar toda a liberdade ao mesmo tempo.
Entra em cena a irmã menos popular da liberdade: a responsabilidade. Não é tão airosa, não tem cravos na lapela, nem músicas bonitas associadas. A responsabilidade é mais daquele género que diz: Sim, podes dizer o que quiseres… mas pensa primeiro. E aí começa o verdadeiro desafio.
Porque ser livre é fácil num dia de sol.
Difícil é ser livre quando discordamos do vizinho, quando a opinião do outro nos irrita, quando apetece responder com um comentário que faria corar um falecido. A liberdade testa-se nesses momentos pequenos, não nos discursos solenes, pomposos e tantas vezes circunstanciais.
Abril, com a sua primavera, ensina-nos isso todos os anos. As flores não pedem autorização para nascer, mas também não crescem à martelada. Há um ritmo, um equilíbrio invisível. A liberdade é igual: cresce melhor quando é cuidada, tratada, construída, instruída, e levada à séria.
E assim andamos nós, entre cravos e espirros de pólen, a tentar equilibrar essa equação improvável: dizer tudo sem dizer demais, fazer tudo sem atropelar ninguém, ser livres… mas com juízo.
No fundo, Abril não nos pede perfeição. Pede-nos apenas que não confundamos liberdade com vale-tudo. Porque a verdadeira liberdade, essa que floresce todos os anos, não é gritar mais alto, é saber quando vale a pena falar… e quando vale ainda mais a pena ouvir.
24 de abril de 2026
eu sou os ontens
Diz-se por aí que quem se renova, vive. Sinto uma certa nobreza em ser um fóssil bem conservado. Se sou hoje o que fui nos muitos ontens da vida, não é por falta de tentativa de atualização de software, é porque o hardware original, ainda que com alguns ruídos na dobradiça, tem um charme que as versões beta não conseguem replicar.
Olhar para o espelho é visitar uma exposição permanente. Estão lá as mesmas teimosias de 1968, o mesmo pânico de atender chamadas desconhecidas e aquela incapacidade crónica de decidir o que jantar. Mudei de morada, mudei de lugar e, segundo os dermatologistas, mudei todas as células da pele. Mas a alma? Essa continua a usar as mesmas pantufas mentais.
Dizem que a maturidade traz a serenidade. No meu caso, a maturidade apenas trouxe uma forma mais articulada de reclamar do preço do azeite, a incapacidade de ficar especado a olhar os vazios, a possibilidade de dizer o que vai no pensamento sem ter medo que lhe cortem as raízes. Antes esquecia-me das chaves de casa e era o ponto final. Hoje esqueço-me das chaves e agora faço uma reflexão filosófica sobre como o objeto é um símbolo da nossa prisão urbana enquanto procuro no bolso errado.
A essência permanece: continuo a rir nas horas impróprias e a achar que para a semana começo a correr mais. Esse ontem de boas intenções é o meu companheiro mais fiel, aquele que trago sempre comigo.
Ser hoje o que se foi ontem é um acto de rebeldia num mundo que nos obriga a ser "versão 2.0" todas as manhãs. Existe um conforto em saber que, se eu me encontrasse comigo mesmo aos dez anos de idade, ambos escolheríamos o mesmo sabor de gelado e a mesma estratégia para evitar arrumar o quarto. Mudar é necessário, mas manter o próprio absurdo é o que nos salva da monotonia de sermos perfeitos.
No fundo, a vida não é uma linha recta rumo à evolução, mas sim um looping da montanha-russa, o cenário muda, o vento sopra mais forte, mas o grito e o frio na barriga é exatamente o mesmo de sempre. E que sorte a minha, pois aquele "eu" de ontem era, apesar de tudo, um tipo bastante porreiro para se levar na mochila.
23 de abril de 2026
O Beto e o Manel na viola e eu nas letras
O Beto e o Manel tocavam viola e com eles fazíamos serenatas à janela. Entusiasmo era mais que muito, a técnica não sei como é que era, mas com uma confiança absolutamente injustificada, saíamos à sexta-feira, qualquer coisa como 10 da noite e, escolhidas as janelas, lá estávamos com todo o nosso ar sério. Eu, por um, fazia as letras o que, na prática, significava que rimava “amor” com “flor” até ao limite do aceitável… e um bocadinho além e quando terminava o nosso reportório íamos para a balada, mesmo que fosse política. Amor não tem facção.
Juntos, éramos uma espécie de tripla artística de garagem, sem garagem e sem grande parte artística, mas com uma coisa essencial: tempo. Muito tempo. E uma capacidade extraordinária de o gastar em coisas perfeitamente inúteis que na época eram-no muito. Uteis, é claro.
Passávamos tardes inteiras sentados num banco do parque infantil. Eles afinavam (ou diziam que afinava), eu escrevia (ou fingia que escrevia), e entre um acorde duvidoso e uma rima sofrível, lá saía mais uma obra.
- Isto está profundo — dizia o Beto, depois de tocar três acordes seguidos sem tropeçar.
- Isto está confuso - acrescentava o Manel e eu dizia que era o melhor que conseguia, rimar coração com camaleão.
Mas ríamos. Ríamos muito. Porque, no fundo, aquilo não era sobre música, nem sobre poesia era sobre o intervalo entre uma coisa e outra. Era sobre inventar canções que nunca ninguém ia ouvir, sobre discutir se o refrão devia entrar antes ou depois de não sabermos bem o quê, sobre achar que estávamos a criar algo genial… e desistir ao fim de dez minutos para ir beber qualquer coisa à Cábula.
Houve uma fase em que tentámos ser sérios. Lembro-me bem. O Beto até fechava os olhos enquanto tocava, como se estivesse num concerto importante. Eu escrevi uma letra sem uma única rima óbvia.
O vento ondula searas
O mar banha a terra
Acontecem coisas raras
Num mundo em guerra...
Morena, morena
dos olhos galantes
quem te deu morena
esses dois diamantes
Resultado: ninguém percebeu nada, e se calhar nem nós.
- Esta é a nossa melhor música - dizia ele, com ar mais sério que lhe vi.
- Concordo - respondia o Manel, que não sei se brincava ou falava sério.
E assim se passávamos o tempo até chegar à sexta-feira e irmos testar na serenata propriamente dita.. Não a correr, nem a voar, a escorregar, suavemente, entre acordes tocados e palavras meio inventadas nos suspiros da respiração.
Se alguém nos perguntasse o que estávamos a fazer, diríamos música. Mas a verdade é que estávamos só a viver devagar, com banda sonora improvisada e recriada nos bancos do parque infantil.
Hoje penso nisso e percebo: não éramos bons músicos, nem grandes letristas. Mas éramos excelentes a perder tempo e, curiosamente, era aí que tudo fazia sentido.
O Beto tocava viola, o Manel tocava viola e eu fazia letras. E juntos, com muito humor e zero pressa, afinávamos o essencial: a arte de não levar a vida demasiado a sério.
22 de abril de 2026
Programa K'arranca às Quartas 115
Fui à praia mas não conto a ninguém
Ah, o verão de quando eu era adolescente. Aquela época era mágica, a gente acreditava piamente que ia parecer um anúncio de gasosa, mas acaba por aparecer como figurante de um documentário sobre desastres naturais.
Aqui vai o relato de um dia "inesquecível".
O plano era simples e infalível: chegar à praia, exibir o tronco que nem Tarzan de trazer por casa, cultivado a fazer três flexões diárias, poucas mas compenetradas, passar bronzeador com a elegância de um artista de filme e, quem sabe, trocar olhares significativos com a menina do guarda sol azul. A Entrada na praia parecia Triunfal, andar na areia com aquele andar despojado, mas havia um problema: a areia estava a aproximadamente 180°C, mais coisa menos qualquer outra. Em vez de um galã, parecia uma pipoca saltitante, soltando pequenos guinchos de dor enquanto buscava desesperadamente uma sombra. Como não queria pedir ajuda, porque homem não precisa de ajuda, tentei alcançar logo o mar. O resultado foi uma performance de contorcionismo que atraiu olhares, mas não de admiração. Terminei o dia com uns pés de urso branco pelado.
Mas saltemos o desinteressante poder de estar sentado a olhar o mar, sem ter pés para caminhar.
O mar estava clássico, segundo os veteranos. Para mim, parecia o cenário de O Dia Depois de Amanhã. Vi um grupo de meninas a olhar com olhar de quem tinha algum interesse. Era a hora. Mergulhei, com algum esforço, numa onda que parecia inofensiva. Três segundos depois, as leis da física decidiram se estar ausentes. Eu girei 360 graus na horizontal e na vertical simultaneamente, num número de circo que nem contorcionista profissional. Perdi o sentido de orientação e achei que o fundo do mar era o céu por uns breves momentos, o que deu tempo para engolir uma caneca de água salgada à temperatura tropical. Alguém correu em meu auxílio e me perguntou se eu estava bem e eu respondi com a maior das mentiras que estava óptimo, enquanto tinha vontade de drenar dois litros de água do meu pobre estômago.
Nesses momento senti que para lá das leis da física a minha dignidade também tinha fugido para parte incerta. Só faltava a sílica da areia ser soprada para a minha boca e eu estar a apreciar uma crocância salgada.
Voltei para casa, escaldado, de corpo e alma, e com pés que nem chinelos de pneu eram suportados.
Foi nesse dia que pensei: daqui a uns anos, quando inventarem as redes sociais nunca lá contarei esta estória.
21 de abril de 2026
eu e os meus livros
Ah, o clássico momento do intelectual de fachada ou o desafio de manter a compostura quando o livro é realmente engraçado! Ler na adolescência tinha todo um protocolo, especialmente quando a intenção era parecer descolado ou fugir da tristeza das aulas.
Tínha aquele que lia o livro, por dentro do livro escolar. Por fora era Trigonometria ou um qualquer outro tratado chato, por dentro era um livro de quadrinhos, uma revista ou um romance proibido que até podia ser a Corin Telado. O risco de ser apanhado era o que dava o tempero àquele risco. Ou então, sabes aquele banco estratégico onde o sol batia e eu abria um livro só para ver se a pessoa de quem gostava passava e me achava profundo? O humor estava em perceber que li a mesma página dez vezes porque estava ocupado demais a controlar o corredor. Ou então ler algo de humor em público e tentar segurar o riso para não parecer maluco, mas acabar a soltar aquele som de porquinho pelo nariz~, tentando segurar o riso. O que mudou de lá para cá?
"Antigamente, a gente lia para fugir do mundo. Hoje, a gente lê e o telemóvel vibra avisando que o mundo quer fugir connosco."
Naquele tempo, se o livro fosse bom, ele circulava pela sala inteira. Ele voltava com dedicatórias nas margens, migalhas nas páginas e, às vezes, com um número de telefone anotado na última página.
Me conta aí uma coisa: nesse meu reino, qual era o tipo de livro que dava status? Era o clássico denso que ninguém entendia, o de terror que dava medo de ir às escuras à casa de banho, ou as revistas de fofoca ou livros de cowboys que eram tratadas como Bíblia?
20 de abril de 2026
um almoço que não irei
Há qualquer coisa de profundamente suspeito nos almoços da minha cidade a que não posso ir. Não digo isto com mágoa, digo com experiência. Porque um almoço ao qual comparecemos é apenas um almoço. Mas um almoço ao qual faltamos… esse transforma-se imediatamente numa epopeia gastronómica, social e até espiritual.
Vamos por partes e antes que me parta todo.
Tudo começa com o convite: “Aparece, vai ser bom.” A palavra “bom” é o primeiro indício de que estamos perante um evento que, na nossa ausência, evoluirá para banquete digno daquele encontro que sempre foi impossível. Nós, ingénuos, acreditamos e fazemos filmes, como pintamos cenários e acreditamos na nossa capacidade imaginativa. Até que surge aquele compromisso inadiável, o dentista, a reunião, ou pior: a necessidade de ficar em casa a fazer absolutamente nada, o que, como todos sabemos, é uma tarefa exigente. Mas na verdade são dois programas de rádio que sem mim simplesmente deixam de existir. Mania de ser imprescindível.
E assim vamos falhar o almoço.
E pronto. A partir daí, a nossa imaginação entra novamente em modo cinematográfico.
O arroz de pato, que provavelmente estava competente e honesto, passa a ser descrito como “o melhor arroz de pato desde que há memória e patos”. A sobremesa — um pudim — ganha contornos de revelação divina. “Aquilo derretia-se na boca!” Claro que derretia. Pudim tem essa tendência, mas dito assim parece que desafiava as leis da física.
E depois há o ambiente. Ah, o ambiente! “Foi uma animação pegada!”
Ninguém fala do tal possível impossível encontro. Contam coisas e fogem. Malandros a ver se perguntamos algo e depois ficam a rir de nós. Mas eu vou desperguntar sempre. Eles vão ter que me contar de vontade própria.
O mais intrigante é a solidariedade que se instala entre os que estiveram presente. Criam-se alianças, cumplicidades, histórias internas e silêncios profundos. Quando finalmente voltamos ao convívio, já há referências que não entendemos:
“Lembras-te do episódio do garfo?”
E nós, de fora, a acenar com a cabeça como quem percebe, mas por dentro a pensar: “Que garfo? O que é que um garfo pode fazer?”
Há também aquela pessoa que tenta ser simpática: “Para a próxima tens mesmo de vir.”
O que, na prática, significa: “Perdeste algo irrepetível e agora vais viver com isso.”
Mas a verdade é que há uma certa beleza nisto tudo. Os almoços a que não vamos ganham uma dimensão mítica que nenhum almoço real conseguiria atingir. Tornam-se melhores precisamente porque não estivemos lá para confirmar que o arroz podia estar um bocadinho seco e que alguém monopolizou a conversa durante quarenta minutos.
Talvez seja esse o segredo: a felicidade dos outros cresce um pouco mais quando não a testemunhamos diretamente. E a nossa curiosidade também.
Por isso, da próxima vez que não puder ir a um almoço da minha cidade, já sei o que fazer: nada. Ficar em casa, tranquilo, a imaginar que lá fora estão a viver o melhor almoço da história enquanto eu, com um simples prato aquecido no micro-ondas, tenho o privilégio raro de não ter de ouvir a história do tal garfo pela quinta vez.
Mas afinal de contas ela foi ou não. Mais tarde saberei!

