Eu, o cirurgião, entrei no gabinete com aquele ar grave que os cirurgiões treinam durante anos, metade concentração, metade teatro. É, um cirurgião de verdade deve ter ar de quem sofre de hemorroidas, barriga grande de prosperidade e ser calvo de tanto pensar.
Sentada à frente da minha secretária estava a D Amélia, perfeitamente composta, com uma mala enorme no colo e uma expressão de quem vinha preparada para tudo… menos para sair dali saudável.
O folhei o processo que o progresso ainda não tinha chegado e era em papel.
- Então diga-me, D. Amélia, o que a traz cá?
- Doutor, eu acho que tenho qualquer coisa grave.
- O que sente?
- Não sei bem… mas sinto que sinto.
Esta frase escrevi no processo: ela sente que sente. Sublinhei.
- Sente que sente. Muito bem e isso não é bom? -perguntei a tentar ganhar terreno
A D. Amélia animou-se, sorriu e soltou a língua..
- Às vezes dói-me aqui. - apontou para o ombro esquerdo - Outras vezes aqui. - apontou para o joelho. - E ontem até me doeu aqui. - enquanto apontava para a orelha.
Intrigado pensei rápido e atirei:
- E agora, neste instante dói-lhe alguma coisa?
A senhora Amélia experimentou fazer um movimento que prontamente interrompi:
- Não se mexa!
Silencio no gabinete.
Levantei-me, caminhei vagarosamente até à janela, como fazem os médicos nas séries de televisão quando estão prestes a revelar um diagnóstico importante.
Voltou-se e disse:
- Já sei o que tem. - disparei
- É grave? perguntou.
- Acho que não. Mas não vou receitar nada, vem cá daqui a 15 dias para eu rever tudo outra vez.
- Mas Dr. conte-me o que está a pensar...
- D. Amélia, a senhora tem saúde e como sabe isso é coisa passageira. Por isso é melhor vir cá novamente daqui a 15 dias para eu ver se se mantem.



